Conecte-se Conosco

Últimas

Com Milton Santos, Fliaraxá coloca a literatura no centro do mundo

Publicado

em

com-milton-santos,-fliaraxa-coloca-a-literatura-no-centro-do-mundo

Pensar o mundo e o lugar de cada um nesse mundo é um dos principais legados de Milton Santos, cujo centenário foi comemorado no último dia 3 de maio. A partir desta quinta-feira (14), o pensamento do maior nome da geografia brasileiro, reconhecido internacionalmente, vai nortear a 14ª edição do Fliaraxá, o Festival Literário Internacional de Araxá, cidade mineira localizada na região do Alto Parnaíba.

Com o tema Meu lugar no mundo, o do Fliaraxá parte da frase do geógrafo: “Ninguém pensa o mundo a partir do mundo. Cada um de nós, ao contemplar o universo, o faz a partir de um dado lugar”, para discutir identidade, pertencimento, os encontros e as histórias que as pessoas vivem nesses caminhos. Esse lugar que não é somente o espaço físico existente, mas de um mundo que pode vir a existir.

Publicidade

Notícias relacionadas:

Nina Santos, neta de Milton, acredita que uma das grandes contribuições da obra do avô é a possibilidade de se “criar novos imaginários e novas perspectivas de mundo”. Em uma obra que é pautada por uma leitura crítica da realidade, Milton Santos nos convida a imaginar um processo de globalização que se dá por outros parâmetros, imaginar outros mundos possíveis. Na realidade, mas também nos livros, na ficção, na literatura.

“Tem uma frase famosa dele que diz que o mundo é composto não apenas pelo que existe, mas também pelo que pode existir, né? Então, esse convite a imaginar a transformação, a imaginar outras possibilidades, a imaginar um outro mundo me parece que é algo que conversa muito diretamente com a literatura. Porque a gente não está necessariamente falando de ficção, a gente está falando da nossa capacidade de interpretar, reinterpretar e construir novos mundos enquanto cidadãs, enquanto cidadãos. Então, acho que as duas coisas estão intimamente ligadas”, disse Nina.

Trajetória

Nascido no interior da Bahia, na região da Chapada Diamantina, Milton Santos viveu em Salvador, em Ilhéus, morou em países como França, Estados Unidos, Japão e Tanzânia, e, no retorno ao Brasil, viveu no Rio de Janeiro e em São Paulo. Uma trajetória que, Nina acredita, foi construindo nele a percepção do quanto faz diferença o lugar a partir do qual você olha o mundo e também a capacidade de se olhar o mundo a partir de vários lugares.

“Essa reflexão dele é um convite pra gente entender que o centro do mundo não é necessariamente Nova York, Paris ou Tóquio; que o centro do Brasil não é necessariamente de Rio, São Paulo ou Brasília. O fato de você estar em diferentes lugares e lugares entendidos enquanto físicos e culturais, metafóricos, construídos, nos permite e nos dá a capacidade de olhar o mundo a partir de outros lugares. Todo mundo pode olhar o mundo”, analisou.

José Eduardo Agualusa

Um dos homenageados do Fliaraxá deste ano é o escritor angolano José Eduardo Agualusa. Autor de livros como O vendedor de passados e A teoria geral do esquecimento, Agualusa lança, no festival, o Tudo sobre Deus. O livro, que conta a história de um geólogo que também é poeta, responde, segundo o autor, a inquietações próprias e traz muitas questões, inclusive sobre a morte.

“Este é um livro muito diferente dos meus romances anteriores. Eu adoeci ano passado e o livro ajudou-me a superar esse período. Conta exatamente a história de um poeta, um geólogo, que, ao descobrir que está a morrer, compra uma capela isolada no sul da Angola, no deserto Namíbia, se isola, refletindo sobre a vida e, portanto, escrevendo o seu diário. O livro é composto também por poemas. Para mim foi um grande desafio também por isso, porque implicou eu criar a poesia dele, não é? Então, eu creio que é o meu livro mais poético”, disse.

Agualusa conta que está sempre a descobrir o Brasil através dos livros. Ele, que já esteve em outras edições do Fliaraxá, diz que o convite para festivais, pelo Brasil, é “uma alegria”, sobretudo ao possibilitar o encontro com leitores. Para o escritor, o Brasil evoluiu muito na formação de leitores e os festivais têm contribuído para isso. Na sua escrita, esse encontro é fundamental.

Publicidade

“Porque os leitores nos ensinam também a ler os nossos livros. Todos os livros têm muitas camadas e os leitores vão descobrindo essas camadas e, portanto, da conversa com os leitores, o escritor também vai aprendendo alguma coisa. Eu acho que os livros só começam a existir a partir do momento em que são lidos. E são lidos de formas muito diversas. Ninguém lê o mesmo livro da mesma maneira, não é? Então, para um escritor, a possibilidade de conversar com os leitores é um aprendizado”, afirma.

O escritor está relendo Grande Sertão: Veredas e celebra a genialidade de João Guimarães Rosa, ao fazer o que ele chama de “invenção literária”, criando um universo literário que funciona e que faz o leitor acreditar nele. “A gente tem que entender que não é uma tentativa sequer, eu acho, de reproduzir a linguagem coloquial. É uma outra coisa, é um tratamento literário. É a invenção do universo, não é? Inclusive do universo linguístico. E a genialidade do Guimarães Rosa está nisso”.

As obras de Agualusa falam de memória e de identidade. Como escritor angolano, ele diz que, de alguma forma, isso está em todos os seus romances. Acredita também que, partindo do local, alcança-se a universalidade e o que diz respeito a todos os homens. Para ele, isso faz a grande literatura. O ofício do escritor, continua, é saber ser todas as pessoas, em todos os tempos.

“Eu posso ler um escritor libanês, um escritor palestino, um escritor norte-americano, o que quer que seja, chinês e me identifico com naquele universo dele, não é? Ainda que nunca tenha estado naquele país, naquele território. É isso que faz a grande literatura. A grande literatura coloca-nos na pele do outro, coloca-nos na pele do outro, não é? Então, não acho que existe uma escrita local, exclusivamente local. Agora, relendo o os grandes sertões, de repente eu estou naquele universo, no meio dos jagunços, né?”.

Meu lugar no mundo

A 14ª edição do Fliaraxá vai até o próximo domingo (17). Entre as atrações, nomes como Alexandre Coimbra Amaral, Bianca Santana, Djonga, Geni Núñez, Gustavo Ziller, Leila Ferreira e Marcelino Freire. A curadoria é Sérgio Abranches, Afonso Borges, Rafael Nolli e Carlos Vinícius.

O festival também conta com um prêmio de redação e de desenho, para estudantes dos ensinos fundamental, médio e EJA. Além de uma exposição fotográfica, com imagens feitas por câmeras analógicas entregues a alunos de 10 a 18 anos. O tema é Meu lugar no mundo.

Publicidade

Repórter do NEWS Roraima, com foco em política, cotidiano e direitos sociais. Acompanha de perto os fatos que moldam a realidade local. Busca sempre o relato humano por trás das notícias. Informação com agilidade e credibilidade.

Últimas

Movimento contra violência sexual lança site para facilitar denúncias

Publicado

em

movimento-contra-violencia-sexual-lanca-site-para-facilitar-denuncias

Fruto de uma parceria entre a Childhood Brasil, o Instituto Liberta, o Grupo Mulheres do Brasil e a Vibra Energia, o Movimento Violência Sexual Zero lançou o Mapa Nacional dos Conselhos Tutelares.

Gratuita, a plataforma funciona como atalho para os mais de 3,5 mil conselhos tutelares existentes pelo país, contendo informações de contato atualizadas.

Publicidade

Notícias relacionadas:

O site têm, ainda, instruções sobre como formalizar uma denúncia relacionada a esse tipo de crime.

Um dos canais sugeridos é o Disque 100, mantido pelo governo federal e que pode ser acionado para solicitar a apuração de situações suspeitas. A ligação é gratuita e o denunciante pode se manter em anonimato. 

Os telefones da Polícia Militar (190) e Polícia Federal Rodoviária (191) são indicados na plataforma para quando se presencia uma violação.

Outra circunstância possível, mencionada pela plataforma, é o abuso sexual infantil cometido com o auxílio da internet e que demanda o envio de denúncia a instituições como a SaferNet (denuncia.org.br). 

O Brasil atingiu, nos últimos anos, um patamar bastante elevado de crimes sexuais envolvendo crianças, adolescentes e o ambiente online.

Publicidade

Em balanço recente da rede internacional InHope, o país subiu da 27ª posição para a 5ª posição, no período de 2022 para 2024, no número de denúncias de páginas de distribuição de conteúdos de abuso sexual infantil

Empresas que desejem apoiar a causa e implementar ações e famílias e educadores que busquem materiais para saber conversar sobre o tema com crianças e adolescentes podem encontrar no site dicas de livros, ferramentas, materiais por escrito e visuais e séries de vídeos com essas finalidades. 

O Movimento Violência Sexual Zero também destaca dados estatísticos coletados por instituições de referência, como o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o DataSUS. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), outro da lista, traz um número importante: apenas 8,5% dos casos registrados no país são denunciados.

Continue Lendo

Últimas

Avião F-4 grego cai durante show aéreo perto de Atenas

Publicado

em

aviao-f-4-grego-cai-durante-show-aereo-perto-de-atenas

Um caça F-4 Phantom grego de dois lugares caiu neste sábado (5) durante uma exibição aérea no aeroporto de Tanagra, perto de Atenas, informou um oficial da Força Aérea Grega à Reuters.

Imagens de vídeo da emissora pública ERT, a primeira a noticiar o acidente, mostraram uma coluna de fumaça preta subindo a algumas centenas de metros dos espectadores que assistiam à exibição aérea. Dois helicópteros combatiam o incêndio no local.

O destino dos pilotos não foi conhecido imediatamente, e não ficou claro se alguém na multidão havia ficado ferido, disse o oficial.

Os alto-falantes da base aérea estavam pedindo às pessoas que deixassem a área, segundo a ERT.

* É proibida a reprodução deste conteúdo.

Publicidade
Continue Lendo

Últimas

Novo mapa-múndi corrige tamanho da África, América do Sul e Ásia

Publicado

em

novo-mapa-mundi-corrige-tamanho-da-africa,-america-do-sul-e-asia

No mapa-múndi, a África, a América do Sul e o Sul da Ásia foram representados, desde o século 16, menores do que são. Nessa sexta (4), a Assembleia Geral das Nações Unidas decidiu corrigir a distorção ao examinar a proposta intitulada “Corrija o mapa”, liderada pelo Togo e outros países africanos.

Ao todo, representantes de 164 países votaram a favor da mudança. Apenas os Estados Unidos foram contrários. Houve seis abstenções. A proposta altera a representação cartográfica global para “mostrar de forma mais justa algumas regiões do mundo”, como explica a ONU.

Publicidade

Notícias relacionadas:

Ao discursar antes da votação, o ministro das Relações Estrangeiras de Togo, Robert Dussey, disse que a aprovação envia a mensagem de que a Assembleia Geral acredita na “verdade científica”. 

Ainda, de acordo com ele, a decisão reforça a equidade de representação e a dignidade dos povos. Para ele, não se trata apenas de corrigir um mapa e sim de corrigir a percepção. 

Distorção

Segundo o argumento, a projeção de Mercator, concebida em 1.569 para fins de navegação, foi amplamente usada em materiais educacionais, midiáticos, digitais e oficiais.

No entanto, a distorção fez com que as massas de terra ao Norte e ao Sul da linha do Equador fossem ampliadas. Essa representação fez com que se perpetuasse “uma visão desequilibrada do mundo”, apontaram os africanos.

O texto ainda afirma que a correção dessas distorções cartográficas de dimensões continentais vai proporcionar “justiça cognitiva e reparação memorial” para fomentar a compreensão mútua entre os povos.

Publicidade

Precisão

Os representantes da União Africana apresentaram o modelo de “Terra Igual” como a projeção cartográfica que representaria com mais precisão as dimensões de todos os continentes. A ONU espera que a aprovação da resolução encoraje a adoção desse modelo por governos, organizações internacionais e outras entidades.

Ainda nos argumentos da União Africana, os mapas constituem uma ferramenta educacional, científica e cultural fundamental que “molda a percepção do mundo e o imaginário coletivo dos povos”.

Segundo o texto, as distorções têm impactos cognitivos, educacionais, culturais, geopolíticos e socioeconômicos e constituem “vieses históricos, cuja correção promoverá reconhecimento, justiça e desenvolvimento”.

A ONU argumentou que o Pacto para o Futuro, aprovado pelos Estados-Membros em 2024, enfatizou a necessidade de eliminar os vestígios de desigualdades históricas e estruturais e de erradicar todas as formas de discriminação.

Publicidade
Continue Lendo
Publicidade
Publicidade
Publicidade
Publicidade

Tendência